em marcha

Avante, palavra em uso!
Quero sonhos já perdidos
nos meus versos 100 sentidos
para as vidas com que cruzo.

Avante, amores sem par!
É de inspirar-se na estrada
que, tanto mistério, nada
fica esquecido juntar.

Avante, rainha audaz,
que o mundo desde o início
sempre foi muito difícil
mesmo a quem não foi atrás.

Avante, rei desolado,
que o reino que mais importa
está depois dessa outra porta,
cuja chave está ao seu lado.

Avante, coração só,
doando sua vida à arte,
porque já dela faz parte
e todo destino é pó.

Avante, criança, sempre!
Que, apesar das incertezas,
dos encontros e belezas
do caminho ainda se lembre.

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sirène noire

ainda ontem ia por onde
a rua arrebatava, secreta mente,
nu concreto a sua frente,
contando olhares, cantares,
os bares abarrotados
de histórias tantas.

sereia de pedra no cimento,
nota fluida na garganta,
deixando para traz
o cais, a areia e o mar,
sem nada e sob o sol,
saída dos sais e só.

aquarela aquela, ela
a amar o mar e a intensidade
do segundo que insiste na vontade
de tragá-lo ao ser tragada,
sanha que inspira e medra
a onda a rebentar na pedra.

era o mergulho no azul,
chuva em cada noite encantada,
em que a palavra de amor cantada
era um reino em descoberta
e a aventura do oceano,
o coração mundano.

e marcou seu fim por ir além
do prazer que o limite permite
até a ronda acabar triste
ao ousar cantar a nota
que deixou a noite oca.
peixe morre pela boca!

faria então sua canção de morte
estender-se continente adentro
enquanto ardia o lamento
da paixão dissolvida,
anoitecendo a luz do dia
o que sua voz dizia…

… serei a concreta
voz que lhe valha
navalha na carne velha
veia via viela
milênios-luz a vagar,
noire…

permanece o mito

Cristo viveu
e passou a Palavra.
G.H. a tomou como
pedra de esculpir

e narrou sua Paixão.

– para lavras e lavouras
o labor dos santos
sobre a terra
a mansa –

Listas delas concentradas
pedem lágrimas para se diluir,
ou mesmo água, sangue, suor ou vinho.

O vinagre alivia o efeito
do gás lacrimogênio,
mas não a sede.

Eu queria dizer,
menos,
eu queira estar,
menos,

deixo a face no lençol para marcar presença.
deixo meu nome num papel a responder ausências.
deixo caneta e papel de lado para saber que existo.
deixo a vista descansar onde não estou.

longe, é

cuidado com o vão

Entre o trem e a plataforma,
um fone extrapola silêncios
de olhares esquivos.

Próxima estação, Paraíso,
desembarque pela via estreita da porta,
Cerca de 4 mi de passageiros por dia,
diz a sanha propagandista
no Metrô de São Paulo.

Corresponde a que deus
minha intenção de arte? Descarte(s),
divindade submersa nas camadas de conversa
espúria, inútil, mais que bem-vinda,
reclamada no conjunto de dois ou mais incapazes da sentença muda.

Sigo avesso a começos no fim de semana,
terceirizando o pretexto
que tanto me comunica,
e comum fica na boca
que enuncia o bloqueio dos trechos.

Um aperto é um aperto e sinal de saúde das operações.
Algo se estranha caso o espaço entre
meu braço em riste e a orelha vizinha
seja maior que os desvios de personalidade.
Estranhemo-nos!

Mais solidário, com tudo, o animal tentou
ainda mostrar que se compraze
da santa devoção ao criador das redes,

Senhoras e senhores,
eu poderia estar matando
roubando me prostituindo
mas humildemente peço que o sol
dê o ar das graças quando sairmos do buraco,

E, interrompendo a burra marcha,
sorrisos-sol escaparam dos vãos
donde só escapavam bocejos.

exorbitante

incapacidade para a objetividade verbal
palavreado vazado das frestas da porta
fechada à chave pelo lado de dentro

maior o alento além da física do asfalto
men or mice povoando em descontrole
vegetativo vias de fatos fetos e afetos

ar que se estreita nos corredores de prédios
pedra sobre pedra no olho do gato preto
em clarão de vigor e vontade até o apagar
das luzes de janelas outras além da vista
aberta para calar as vozes entorpecendo
a combustão dos corpos tragados à noite

e as luas todas orbitando-nos

1 am. the silence

Travou dos olhos um clarão que ainda desconhecia, open sea, na cidade que não tem mar. Chovia garoa no fim do dia e, sem saber o que esperar, seguia singrando, barquinho na lagoa, prestes a adentrar o oceano que é uma pessoa. E mergulhou. Era pela palavra que se entregava, meio bêbado, meio eufórico, um tanto descrente, e apaixonado. Mas a ebriedade passava, a euforia passava, a descrença dava uma trégua, a paixão se assentava. Então a ordem era limpar a visão para que fosse possível o inventário dos cantos remexidos, cavernas escuras, fendas abertas na rocha, donde a palavra voltava em eco. E por esse introito faria apenas aceitar o presente das águas que o levaram, tendo deliberadamente se atirado no azul e aportado sereno. Era o momento imenso de se confirmar pleno, vivo, afeito ao afeto que fluía por dentro. 1h da manhã e esse era o silêncio, que o tomava nos braços e o acalentava sobre seu peito. O mar aberto.

assim eu, caio

Escute, isso pode soar baixo, descarado, grave, o timbre da minha voz arranha a sua intimidade, mas até quando eu poderia segurar? Deixemos de botar panos quentes, palavra macia, assunto que fuja do ponto onde eu quero tocar você. Pois eu quero. Você quer? Faltava pouco para que um de nós caísse num circulo de fogo e esse fui eu, que ando agora queimando as horas de insônia, um disco às voltas revoltas de histórias que cada música me traz de volta do limbo onde encerrei tais ciclos. E o que mais você esperava? Marina me chamando pra dançar? Basta o som. Bastaria o sim. Bastava assim também qualquer começo de meio fim, pra exorcizar de mim vontades de nunca mais. O que dá pra fazer? Quando se vê está lá você de novo, insistindo no erro pra provar que é burrice consentida, ao menos a decisão está na sua mão, atesta o passo em falso, mas firme.  E como? A pergunta que mais assusta. Oi? Hesita. Deixa disso! Abro mão das explicações, já que nem você, eu muito menos, pode saber o que se passa para além de nós. E esse nós queria abarcar as eras todas que se seguissem após nós passando no fio ou meio fio da vida, a linha alucinada escorrendo entre os dedos abertos, marcando ao modo antigo nossas antigas formas de ser. Pelo disfarce. Nós de marinheiro, nós de escoteiro, nós de frade, nós cegos, nós celtas, nós de gravata, nós americanos, nós de corrente paulista, nós duplos, nós borboletas e voando, sem ter nem onde cair… tadinha delas. Insetos rodando às tontas, descendentes de Samsa, G. H., Magnólia. O mesmo quarto claro-escuro, catacumba da besta primitiva dos subsolos, o minarete lendário das noites de história, o arcano fatalístico do baralho, agora ao nosso redor, sobre a cidade, instituindo a  loucura sóbria como a forma mais normal de ser. Conversa. Já fomos melhores. Piores também. Deixemos a nostalgia, chega de saudade. Mas como? Se é sempre um verso de uma música velha e caduca que me anima e faz fluir o tempo do número. Esse espetáculo é o ultimato de toda modernidade já passada, tanto que já foi e fomos, eu pra você, você pra tantos outros. Desse último grito sobe ao primeiro avião que passa a minha gana, a minha angústia, a intensidade dos afetos que encubro de toda bisbilhotagem, ou melhor, da banalização do privado. Que fique antes na privada, que rode na descarga junto ao que você botou fora depois daquele porre de lavar a alma com álcool. Isso sim é limpar-se interiormente. Manda química pra dentro! E deixa a matemática lá fora, o bom português vegetando na sarjeta. Isso salvará a humanidade, se não acabar com ela antes. Palmas para o Dom Quixote, que ele merece! Meu bem, você tem que acreditar em mim quando digo que não mais é possível ver o que quer que seja do óbvio do mundo para esse mundo do artifício, artífice do futuro de fogo que nos aguarda. Essa incandescência é o lume prévio do que há por vir. Então vem, vambora, que o que você demora é o que o tempo leva. E não traz. Já não trago mais. Parei de fumar para não parar, e mover-me tem sido o que de melhor eu desfaço desse tempo em reclusa. Existência deformada e confusa? Conformemo-nos que dói menos. E você? Doendo menos essa vida ou doando dúvida à vida dupla? Remoendo a dívida pública? Soit les pubelles, que as palavras bonitas designam o lixo que se acumulou de tanto usa e joga fora. Talvez eu fizesse mais do que esperar as coisas guinarem, e tudo calou, e foi corroído de deixar passar, senso e sentido, toda a nossa sensatez. Cabe recurso para esse tipo de deterioração? Faz melhor jogar pela janela, agora que emerge do tom da voz, do olhar para não olhar o que em nós se estampava até na postura dum diante do outro. Fomos capazes alguma vez de corrigir a rota, de evitar o choque, a descarga elétrica do toque? Se a liga ou ligação surpreendesse quem estivesse a postos. Mas éramos apostos que mais encobriam que elucidavam, por isso a preferência em se ver só. E quando pega pra doer esse lance de viver solto e sozinho, é de fazer você querer se afundar no mais fundo do que seja o comum de todos, sentir ao menos que se mescla ao todo, essas drogas dionisíacas que se alastraram feito praga nesse nosso século. Quando eu ansiava apenas à pureza pela purgação da palavra que lhe endereçava, estados brutos sobrando nos cantos amontoados da varrição, e um sinal de resposta despertaria a atenção devida ao caso das nove falhas, o ímpeto, a discórdia, o alheamento, a estagnação, o caos, a perversão, a frigidez, o interesse e o interesse algum, todos pedra, pó e ponta solta. E de que maneira eu dizia para você ficar que você não foi capaz de entender, ouvir sequer o som da minha respiração, estando eu tão perto assim de você? Era de ter apenas uma resposta e nada, no meio do mundo ignorado. Bem que se quis, sim, deixar a história pra lá, mas não, algo me movia a dizer e eu não pude conter além da segunda cerveja. Sim, um fraco. Mas quem foi mais? A intensidade do desespero é capaz de medir força? Pois você nem viu que ali jazia uma carta guardada, aguardando apenas você chegar e estender a mão para eu tomá-la e a você todo, porque o que se tinha a dizer me escapava das palavras tantas, tontas, tortas, esboçadas quando sua ausência era a presença maior a minha volta. E eu nem quis perguntar a hora, logo assim que acordasse, mas nem hora marcada, nem nunca de aceitar meu calor, meu endereço, destruir meus desenganos. Não. Já desespera por alguém pra lhe ouvir. Ah… Ro-Ro, quanto amor nos dana! Só danando pra acalmar, e um abraço que aconchegue melhor o corpo ansiando colo é melhor que a cama de dormir, porque é um leito de morte, maior e melhor que o paliativo do sono, extremo o amor. Assim eu caio. Da janela do sétimo andar. Almejando a glória de Glória F. no Viaduto do Chá e me experimentando Caio F. diante da vidraça embaçada. Assim eu, Caio

o sátiro

uma pequena mostra
dos entrosamentos sadios
vadios
enquanto ocultos
à noite
dos mascarados
não escondem o riso
ao aviso
e à visão, baços
traços tortos linhas retas.

in-diretas
certas
do ciclo hídrico
das mágoas, magnas
bestas
a (per)fumar as sextas
trago-as, todas
funestas
festas.

nefasta
lua minguante
ante o bar dos navegantes
que buscaram seu torrão
de terra
avista
a vasta
rua escaldante
sem saber qual dos mirantes
encarou fundo o borrão
que encerra
a vista
afasta
sua constante
cósmica de andar errante
e afunda sua pré-visão
em terra.

a pista
arrasta
o instante
adiante
irão
eu era
quem
com a cerveja na mão
dizia verdades
como quem erra.

cais

Assim como de outras incontáveis vezes, no meio da noite, um sinal rebentará o rumor dos uivos do vento pelos corredores, alucinado, perpétuo, e toda luz oscilará sua vibração, bruxuleante e atomizada nas mil janelas empilhadas sobre as eras perscrutadas de nossa civilização. O passo é a consequência de súbitos temores reconfigurados em decisão, martelando a certeza de permanecer o corpo sobre os entes decompostos, sob o composto atmosférico de anuviar. Não mais palmeiras do monte, não mais sentidos ao longe, não mais horizonte, não mais. Úmidas formas carregam-se de lucidez e chuviscam a barreira dos olhos de dentro, dos olhos de fora. Castiçais erigem opulências em sondar os quartos matrimoniais, o escuro é sempre obscurecido, ou valha de ser sempre o apagamento esclarecido, a fim de sustentar a sombra, a penumbra, a distinção de um corpo opaco, a solução de um fim fraco, buraco, donde meninos sempre colidem feições e afetos, perto da porta do mar, porto de amar e partir. Adeus!