Permanece o mito

Cristo viveu
e passou a Palavra.
G.H. a tomou como
pedra de esculpir

e narrou sua Paixão.

– para lavras e lavouras
o labor dos santos
sobre a terra
a mansa –

Listas delas concentradas
pedem lágrimas para se diluir,
ou mesmo água, sangue, suor ou vinho.

O vinagre alivia o efeito
do gás lacrimogênio,
mas não a sede.

Eu queria dizer,
menos,
eu queira estar,
menos,

deixo a face no lençol para marcar presença.
deixo meu nome num papel a responder ausências.
deixo caneta e papel de lado para saber que existo.
deixo a vista descansar onde não estou.

longe, é

cuidado com o vão

Entre o trem e a plataforma,
um fone extrapola silêncios
de olhares esquivos.

Próxima estação Paraíso,
desembarque pela via estreita da porta,
Cerca de 4 mi de passageiros por dia
diz a sanha propagandista
no Metrô de São Paulo.

Corresponde a que deus
minha intenção de arte? Descarte(s),
divindade submersa nas camadas de conversa
espúria, inútil, mais que bem-vinda,
reclamada no conjunto de dois ou mais incapazes da sentença muda.

Sigo avesso a começos no fim de semana,
terceirizando o pretexto
que tanto me comunica,
e comum fica na boca
que enuncia o bloqueio dos trechos.

Um aperto é um aperto e sinal de saúde das operações.
Algo se estranha caso o espaço entre
meu braço em riste e a orelha vizinha
Seja maior que o desvio de personalidades.
Estranhemo-nos!

Mais solidário, com tudo, o animal tentou
ainda mostrar que se compraze
da santa devoção ao criador das redes

Senhoras e senhores,
eu poderia estar matando
roubando me prostituindo
mas humildemente peço que o sol
dê o ar das graças quando sairmos do buraco

E, interrompendo a burra marcha,
sorrisos-sol escaparam dos vãos
donde só escapavam bocejos.

exorbitante

incapacidade para a objetividade verbal
palavreado vazado das frestas da porta
fechada à chave pelo lado de dentro

maior o alento além da física do asfalto
men or mice povoando em descontrole
vegetativo vias de fatos fetos e afetos

ar que se estreita nos corredores de prédios
pedra sobre pedra no olho do gato preto
em clarão de vigor e vontade até o apagar
das luzes de janelas outras além da vista
aberta para calar as vozes entorpecendo
a combustão dos corpos tragados à noite

e as luas todas orbitando-nos

1 am. the silence

Travou dos olhos um clarão que ainda desconhecia, open sea, na cidade que não tem mar. Chovia garoa no fim do dia e, sem saber o que esperar, seguia singrando, barquinho na lagoa, prestes a adentrar o oceano que é uma pessoa. E mergulhou. Era pela palavra que se entregava, meio bêbado, meio eufórico, um tanto descrente, e apaixonado. Mas a ebriedade passava, a euforia passava, a descrença dava uma trégua, a paixão se assentava. Então a ordem era limpar a visão para que fosse possível o inventário dos cantos remexidos, cavernas escuras, fendas abertas na rocha, donde a palavra voltava em eco. E por esse introito faria apenas aceitar o presente das águas que o levaram, tendo deliberadamente se atirado no azul e aportado sereno. Era o momento imenso de se confirmar pleno, vivo, afeito ao afeto que fluía por dentro. 1h da manhã e esse era o silêncio, que o tomava nos braços e o acalentava sobre seu peito. O mar aberto.

assim eu, caio

Escute, isso pode soar baixo, descarado, grave, o timbre da minha voz arranha a sua intimidade, mas até quando eu poderia segurar? Deixemos de botar panos quentes, palavra macia, assunto que fuja do ponto onde eu quero tocar você. Pois eu quero. Você quer? Faltava pouco para que um de nós caísse num circulo de fogo e esse fui eu, que ando agora queimando as horas de insônia, um disco às voltas revoltas de histórias que cada música me traz de volta do limbo onde encerrei tais ciclos. E o que mais você esperava? Marina me chamando pra dançar? Basta o som. Bastaria o sim. Bastava assim também qualquer começo de meio fim, pra exorcizar de mim vontades de nunca mais. O que dá pra fazer? Quando se vê está lá você de novo, insistindo no erro pra provar que é burrice consentida, ao menos a decisão está na sua mão, atesta o passo em falso, mas firme.  E como? A pergunta que mais assusta. Oi? Hesita. Deixa disso! Abro mão das explicações, já que nem você, eu muito menos, pode saber o que se passa para além de nós. E esse nós queria abarcar as eras todas que se seguissem após nós passando no fio ou meio fio da vida, a linha alucinada escorrendo entre os dedos abertos, marcando ao modo antigo nossas antigas formas de ser. Pelo disfarce. Nós de marinheiro, nós de escoteiro, nós de frade, nós cegos, nós celtas, nós de gravata, nós americanos, nós de corrente paulista, nós duplos, nós borboletas e voando, sem ter nem onde cair… tadinha delas. Insetos rodando às tontas, descendentes de Samsa, G. H., Magnólia. O mesmo quarto claro-escuro, catacumba da besta primitiva dos subsolos, o minarete lendário das noites de história, o arcano fatalístico do baralho, agora ao nosso redor, sobre a cidade, instituindo a  loucura sóbria como a forma mais normal de ser. Conversa. Já fomos melhores. Piores também. Deixemos a nostalgia, chega de saudade. Mas como? Se é sempre um verso de uma música velha e caduca que me anima e faz fluir o tempo do número. Esse espetáculo é o ultimato de toda modernidade já passada, tanto que já foi e fomos, eu pra você, você pra tantos outros. Desse último grito sobe ao primeiro avião que passa a minha gana, a minha angústia, a intensidade dos afetos que encubro de toda bisbilhotagem, ou melhor, da banalização do privado. Que fique antes na privada, que rode na descarga junto ao que você botou fora depois daquele porre de lavar a alma com álcool. Isso sim é limpar-se interiormente. Manda química pra dentro! E deixa a matemática lá fora, o bom português vegetando na sarjeta. Isso salvará a humanidade, se não acabar com ela antes. Palmas para o Dom Quixote, que ele merece! Meu bem, você tem que acreditar em mim quando digo que não mais é possível ver o que quer que seja do óbvio do mundo para esse mundo do artifício, artífice do futuro de fogo que nos aguarda. Essa incandescência é o lume prévio do que há por vir. Então vem, vambora, que o que você demora é o que o tempo leva. E não traz. Já não trago mais. Parei de fumar para não parar, e mover-me tem sido o que de melhor eu desfaço desse tempo em reclusa. Existência deformada e confusa? Conformemo-nos que dói menos. E você? Doendo menos essa vida ou doando dúvida à vida dupla? Remoendo a dívida pública? Soit les pubelles, que as palavras bonitas designam o lixo que se acumulou de tanto usa e joga fora. Talvez eu fizesse mais do que esperar as coisas guinarem, e tudo calou, e foi corroído de deixar passar, senso e sentido, toda a nossa sensatez. Cabe recurso para esse tipo de deterioração? Faz melhor jogar pela janela, agora que emerge do tom da voz, do olhar para não olhar o que em nós se estampava até na postura dum diante do outro. Fomos capazes alguma vez de corrigir a rota, de evitar o choque, a descarga elétrica do toque? Se a liga ou ligação surpreendesse quem estivesse a postos. Mas éramos apostos que mais encobriam que elucidavam, por isso a preferência em se ver só. E quando pega pra doer esse lance de viver solto e sozinho, é de fazer você querer se afundar no mais fundo do que seja o comum de todos, sentir ao menos que se mescla ao todo, essas drogas dionisíacas que se alastraram feito praga nesse nosso século. Quando eu ansiava apenas à pureza pela purgação da palavra que lhe endereçava, estados brutos sobrando nos cantos amontoados da varrição, e um sinal de resposta despertaria a atenção devida ao caso das nove falhas, o ímpeto, a discórdia, o alheamento, a estagnação, o caos, a perversão, a frigidez, o interesse e o interesse algum, todos pedra, pó e ponta solta. E de que maneira eu dizia para você ficar que você não foi capaz de entender, ouvir sequer o som da minha respiração, estando eu tão perto assim de você? Era de ter apenas uma resposta e nada, no meio do mundo ignorado. Bem que se quis, sim, deixar a história pra lá, mas não, algo me movia a dizer e eu não pude conter além da segunda cerveja. Sim, um fraco. Mas quem foi mais? A intensidade do desespero é capaz de medir força? Pois você nem viu que ali jazia uma carta guardada, aguardando apenas você chegar e estender a mão para eu tomá-la e a você todo, porque o que se tinha a dizer me escapava das palavras tantas, tontas, tortas, esboçadas quando sua ausência era a presença maior a minha volta. E eu nem quis perguntar a hora, logo assim que acordasse, mas nem hora marcada, nem nunca de aceitar meu calor, meu endereço, destruir meus desenganos. Não. Já desespera por alguém pra lhe ouvir. Ah… Ro-Ro, quanto amor nos dana! Só danando pra acalmar, e um abraço que aconchegue melhor o corpo ansiando colo é melhor que a cama de dormir, porque é um leito de morte, maior e melhor que o paliativo do sono, extremo o amor. Assim eu caio. Da janela do sétimo andar. Almejando a glória de Glória F. no Viaduto do Chá e me experimentando Caio F. diante da vidraça embaçada. Assim eu, Caio

o sátiro

uma pequena mostra
dos entrosamentos sadios
vadios
enquanto ocultos
à noite
dos mascarados
não escondem o riso
ao aviso
e à visão, baços
traços tortos linhas retas.

in-diretas
certas
do ciclo hídrico
das mágoas, magnas
bestas
a (per)fumar as sextas
trago-as, todas
funestas
festas.

nefasta
lua minguante
ante o bar dos navegantes
que buscaram seu torrão
de terra
avista
a vasta
rua escaldante
sem saber qual dos mirantes
encarou fundo o borrão
que encerra
a vista
afasta
sua constante
cósmica de andar errante
e afunda sua pré-visão
em terra.

a pista
arrasta
o instante
adiante
irão
eu era
quem
com a cerveja na mão
dizia verdades
como quem erra.

cais

Assim como de outras incontáveis vezes, no meio da noite, um sinal rebentará o rumor dos uivos do vento pelos corredores, alucinado, perpétuo, e toda luz oscilará sua vibração, bruxuleante e atomizada nas mil janelas empilhadas sobre as eras perscrutadas de nossa civilização. O passo é a consequência de súbitos temores reconfigurados em decisão, martelando a certeza de permanecer o corpo sobre os entes decompostos, sob o composto atmosférico de anuviar. Não mais palmeiras do monte, não mais sentidos ao longe, não mais horizonte, não mais. Úmidas formas carregam-se de lucidez e chuviscam a barreira dos olhos de dentro, dos olhos de fora. Castiçais erigem opulências em sondar os quartos matrimoniais, o escuro é sempre obscurecido, ou valha de ser sempre o apagamento esclarecido, a fim de sustentar a sombra, a penumbra, a distinção de um corpo opaco, a solução de um fim fraco, buraco, donde meninos sempre colidem feições e afetos, perto da porta do mar, porto de amar e partir. Adeus!

ardor

A dor é antes física. Uma ferida aberta, o abatimento do corpo, dor de poeta em ver-se, verso – o olho da Medusa o atravessa e tornar-se pedra é a morte. Essa dor nasceu em mim, a natural ponderação, reação e resposta de um organismo ao que lhe atenta contra. Doer conserva em si o estado de ânimo de um corpo, atestando o frágil equilíbrio que o sustenta e ainda a força dispendida em suportá-lo – aguenta! Corpo que sente e mente ressente.

Recentemente foi a vez vazada, flecha transpassada na carne, onde a ficção se alastra, porque esta era a substância que embebia a ponta da seta e já me tolhe todos os movimentos uma irrealidade letal. A mente pesa dos sentidos aturdidos, de uma vez surpreendidos no silêncio que a tarde guardava. A literatura liga-se à percepção, delineando a forma e o fio da história, condenando-me a desenrolar seus metros através do labirinto da língua, pois somente a palavra pode estancar o ferimento e diluir este veneno no meu sangue, talvez curar.

Deliro. Delícias de longas horas a passar inerte ao sabor do que por mim flui. Minha seiva escorre, estou árvore! Uma folha brotou na extremidade mais longínqua de minha extensão, buscando luz. Em seus veios, minhas veias, um novo código desenha-se. É o vulto de um homem solitário e caminhante, havia se lançado aos cantos e contos da memória e nutria a vontade intensa de achar caminho ao seu próprio encontro. Dia mais, dia menos, viu pousada numa cerca da estrada aquela ave, imponente e belo Carcará, só o conhecia de menção, e deslumbrava-se de seu tamanho, cores marcadas, animal já quase mítico. Paralisou de início, tomado de estupefação, e tentou se aproximar de leve, ver mais perto o bicho. Foi de pronto o animal notá-lo e voar para o céu largo. O homem ainda descria de seus olhos, mas na certeza íntima de ter flagrado um deus dos caminhos, e esse deus lhe brindava o espírito e o pensamento com fé e razão maiores que tudo o mais em que podia se firmar de existir na vida. A ave lhe existia e ele a ela. Num segundo choque, porém, constatou, ao pé de onde pousava a ave, a carcaça dilacerada de um pombo, ossos expostos com fiapos de carne, a cabeça dali alguns centímetros, penas ensanguentadas no entorno, restos mortais conclamando a potência e a violência desse deus…

Onde me deixo estar pela vontade estética e a energia estática – disparam-se ondas de febre e alucinações. Toda palavra eu miro, lanço, atinjo nem sempre quem me atingiu primeiro, quase nunca, espalhando-me e dissolvendo-me à superfície do planeta no breu das horas e dos campos – esta vida insiste em ser real, sendo fato ou ficção, e manifesta-se no princípio original do Verbo presente em tudo.

Reverbero, enfim, as ondulações do impacto, a fisicalidade do ato, a dor primeira do corpo. No ar, ardor ressoa, a dor se convertendo em memória, assimilável e necessária, penetrando aguda e me tomando de conquista, embora eu não saiba dizer quem se aproprie de quem, absorvendo-se mutuamente nós, vós, todos. Fica o depoimento, com o fim certo de um dia eu tombar ao chão, quando não mais valer ao tempo, como a folha que nasceu de meus ramos, assim também absolutamente tudo.

Podendo-se apenas podando a pensamentos, mentes, mentes que m’entendes. Mais seria maresia se assim somássemos nós mesmos mais, menos, mas serenos de más sinas. E nas horas que demoras, dá-me agora uma outra história grave, greve, breve, mas de leve. Haja jeito de juntar gentis inúteis ao sentir dos dias, dirás, direis, direitos diretos de ir reto e retomar o mar, amor, a mor-T.